O que é e por que importa
Nem todo item custa o mesmo quando atrasa. Um defeito que impede clientes de pagar custa muito a cada hora. Uma adequação legal custa pouco até a data limite e muito depois dela. Uma atualização de biblioteca não custa nada hoje, mas pode virar crise em seis meses. Tratar tudo numa fila única, ordenada por quem fala mais alto, produz decisões caras.
O Método Kanban responde a isso com classes de serviço: políticas explícitas que dizem como cada tipo de risco é tratado no fluxo. A pergunta deixa de ser “o que é mais importante?” e passa a ser “o que custa mais esperar?”.
Conceitos-chave
Custo de atraso e os seus perfis
O custo de atraso é o valor que se perde por unidade de tempo enquanto um item não é entregue: receita que não entra, multa que se aproxima, risco que cresce. O conceito foi difundido por Don Reinertsen no desenvolvimento de produtos. A forma como esse custo evolui no tempo dá origem a perfis típicos:
- Urgente (expedite): custo alto e imediato. Cada dia conta desde agora.
- Data fixa: custo baixo até uma data e alto, às vezes total, depois dela. Um evento, uma exigência regulatória, uma janela de mercado.
- Padrão: custo que começa logo e cresce de forma razoavelmente contínua. A maior parte do trabalho fica aqui.
- Intangível: custo pequeno hoje, que pode subir muito no futuro. Dívida técnica, atualizações, prevenção.
Você não precisa de um valor exato em reais: reconhecer o formato da curva já muda a decisão.
Classes de serviço e as suas políticas
Cada perfil vira uma classe com políticas próprias. Um exemplo plausível para um time de produto:
- Urgente: no máximo um item por vez no sistema; pode passar à frente de tudo; alguém com disponibilidade puxa imediatamente.
- Data fixa: entra no sistema com antecedência calculada a partir dos percentis de Lead Time, e não na véspera; é acompanhado pela idade.
- Padrão: puxado em ordem de chegada dentro da sua cota, com a SLE do serviço.
- Intangível: tem uma cota reservada para não ser adiado para sempre; pode ceder a vez a itens de data fixa em risco.
As políticas devem estar no quadro, geralmente em uma raia ou por cor do cartão, e valer para todos. O valor da classe está na regra combinada, e não no rótulo. Explore as diferenças na experiência de classes de serviço.
CD3: custo de atraso dividido pela duração
Quando vários itens disputam a mesma capacidade, uma regra econômica útil é fazer primeiro o que tem maior custo de atraso por unidade de duração. O nome dessa razão é CD3 (cost of delay divided by duration).
Considere dois itens. O item A custa R$ 10 mil por semana de atraso e leva 2 semanas. O item B custa R$ 6 mil por semana e leva 1 semana. O CD3 de A é 5 mil; o de B, 6 mil. Fazendo A primeiro, o custo total de atraso é R$ 20 mil de A mais R$ 18 mil de B, que espera 3 semanas: R$ 38 mil. Fazendo B primeiro, são R$ 6 mil de B mais R$ 30 mil de A: R$ 36 mil. O item “mais valioso” não é o que deve ir primeiro. Trabalhe esse raciocínio no desafio de sequenciar por custo de atraso.
O CD3 é uma ideia orientadora, não uma fórmula de precisão falsa: custo e duração são estimativas incertas, e o ganho vem de tornar a conversa econômica e explícita.
Alocação de capacidade
A alocação de capacidade reparte o WIP do sistema entre tipos ou classes de trabalho. Com um limite total de 10 itens, um time pode reservar 6 para padrão, 2 para data fixa e 2 para intangível, com um espaço extra para urgente. Isso garante que melhorias e dívida técnica avancem mesmo sob pressão. A proporção é revista nas cadências, com dados de demanda.
O abuso do urgente
Quando tudo é urgente, nada é. Os sinais são conhecidos: a raia de urgência nunca fica vazia, os itens padrão envelhecem e a previsibilidade do serviço some. A resposta é política, não esforço. Defina quem pode declarar um item urgente, limite a quantidade simultânea, registre cada ocorrência e examine a proporção na Revisão de Entrega de Serviço. Muitas “urgências” são, na verdade, itens de data fixa que entraram tarde demais.
Priorizar e sequenciar
Priorizar costuma significar ordenar uma lista longa de uma vez, muitas vezes semanas antes de o trabalho começar. Essa ordem envelhece rápido e consome tempo de discussão. No Método Kanban, a decisão se divide em dois momentos. No Reabastecimento, o time e quem pede selecionam, entre as opções disponíveis, quais cruzam o ponto de comprometimento, considerando custo de atraso, risco e capacidade. Depois do comprometimento, a ordem de puxar segue as políticas das classes de serviço. Assim a decisão é tomada o mais tarde possível, com a melhor informação disponível.
Erros comuns
- Classes sem política. Rotular um cartão como “data fixa” sem regra de entrada nem acompanhamento não muda nada.
- Começar o item de data fixa na véspera. A antecedência deve vir dos percentis de Lead Time, como no desafio do compromisso de data fixa.
- Sem cota para o intangível. O trabalho que evita crises nunca começa, até virar uma.
- Tratar a ordem do backlog como compromisso. A ordem de opções não é promessa de entrega.
Como isso aparece na prova
As questões pedem decisões de sequência e de política. Exemplos do tipo de situação: dois itens com custos e durações diferentes disputando uma vaga; um item de data fixa com prazo em 15 dias em um sistema cujo percentil 85 é 18 dias; uma raia de urgência sempre ocupada; um time que quer reservar capacidade para dívida técnica. Você precisa escolher a ação mais coerente com custo de atraso e com as políticas, e reconhecer o perfil de custo de um item a partir da descrição.
Perguntas frequentes
Classe de serviço e tipo de item são a mesma coisa?
Não. O tipo de item descreve a natureza do trabalho, como defeito ou funcionalidade. A classe de serviço descreve como ele é tratado conforme o risco do atraso. Um defeito pode ser urgente ou padrão, dependendo do impacto.
Preciso calcular o custo de atraso em dinheiro?
Não necessariamente. Reconhecer o perfil da curva já melhora a decisão. Quando há dados, estimar valores aproximados permite comparar itens com o CD3; o importante é a ordem de grandeza e a conversa explícita.
Como evitar que tudo vire urgente?
Com política: quem pode declarar, quantos podem existir ao mesmo tempo e revisão periódica das ocorrências. Revisar as urgências nas cadências mostra se o problema é de demanda real ou de itens que entram tarde demais.